segunda-feira, outubro 22, 2007

Um conto... mais um dia e uma noite.



Duas faces do mesmo espelho.

Como se houvesse peso em minhas pálpebras elas pesam.
Não há dor. Há calmaria, paz e serenidade.
Silêncio...
O silêncio é tal que quase posso tocá-lo.
Até que...

Tudo ao meu redor é caos. Sinto a terra tremer, ouço o solo gemer, massacrado por cascos pesados.
Centenas.
Não... milhares deles.
Onde está minha paz?
Abro os olhos.
O cheiro de guerra invade minhas narinas.
Atordoado eu tento levantar.
Me sinto pesado...
Me toco...
Olho ao meu redor, estão todos lá.
Centenas de homens enormes,enfileirados. Com olhos ardendo dentro de elmos negros. Espadas em punho... parecem aguardar.
- Meu lorde. Os homens esperam suas ordens. Diz um deles prostando-se à minha frente.
Agora percebo. Também sou um deles.
Em minha mão, um punhado de terra.
Na outra uma espada, reluzente, brilhando a luz da lua.
Agora tudo parece vir em um turbilhão a minha mente. É a guerra.
Ainda de joelhos, beijo aquele punhado de terra e aperto o punho de minha espada.
Ferro e fogo. Minha espada clama pela vitória.
Minha armadura geme com o peso de meu corpo ereto.
Em um átimo, subo em meu cavalo, negro, como todos os outros de meu exército.
- Cavaleiros. Digo voltando-me para meus homens, ainda ansiosos por suas ordens.
- Esta noite será nossa.
- Que a chama que brilha em seus olhos incendeie suas espadas e espalhe o terror no coração do inimigo.
- Somente vive aquele que luta por sua vida. Sejam justos. Sejam impiedosos. Sejam pesadelo e sonho.
Daqui de cima posso ver a chama em cada um desses olhos. Pronta para incendiar o mundo. Pronta para morrer por suas crenças.
- AS ARMAS!
Chamo meu general e dou-lhe suas ordens.
Aguardaremos o inimigo em posição privilegiada. Atacaremos somente ao meu comando.
Aqueles minutos de espera são longos...
Reter meus homens ali parados é como escorar a força de um tsunami com uma vareta de bambu. Eles estão ansiosos.
Mais um pouco... penso eu.
Só mais um pouco.
Em momentos o inimigo está na posição planejada...
Ergo minha espada e grito:
- AVANTE HOMENS! PARA A GLÓRIA!
Como uma onda arrebatadora, meus exércitos se lançam sobre o inimigo.
Sou um deles.
Como a ponta de uma lança, sou um dos primeiros a alcançar o inimigo.
O choque dos dois exércitos é ensurdecedor.
Minha espada faz bem o seu trabalho.
Sinto as armas do inimigo quase me tocarem, mas não me tocam.
Passam por mim como flechas desviadas por uma força maior.
Sorte? Não questiono.
O trabalho de minha espada é árduo e não a tempo para questionamentos tolos.
Em instantes minha cavalaria atravessou o exército inimigo como uma pedra em um desmoronamento. Isso lhes custa caro.
A infantaria cumpre bem sua tarefa, esmaga o inimigo como uma tsunami.
Em pouco tempo não há mais inimigos em condição de combate.
Sofremos perdas, homens valorosos. Mas honramos sua morte com uma vitória esmagadora.
Ergo a bandeira inimiga, sinto milhares de olhos de fogo em minha direção.
Com um golpe quebro a bandeira.
Como um homem só, um gigante que o mundo pode ouvir, meu exército comemora a vitoria.
Gritam meu nome.
Sou o senhor dos exércitos.
Sou a paz e a guerra.
A dor e o alívio.

Minhas vistas escurecem...
O som parece esmaecer...
A calma retorna.
O cheiro suave e agradável de lavanda...
Abro meus olhos.
Estou em minha cama. Meu quarto e minha casa.
Sou somente eu novamente.
Até a próxima batalha.